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I'm the legend
A lenda diz que, quando o poeta Antonio Alves se isola, nem o sertanista Meirelles consegue localizá-lo. A esperança é vê-lo retornar com o paneiro lotado de prosa e poesia. (
Escrito por Antonio Alves às 21h02
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Samuel o’clock
Quase dava uma friagem para o aniversário de Samuel. Ainda assim, ele fez uma fogueira (fez nada, carregou dois gravetos e ficou cansado) e chamou uns amigos pra comer churrasquinho e bolo. Ganhou uns presentes legais, entre eles um game que é atualmente o seu predileto, Guitar Hero 3, com um joystick com formato de guitarra. Agora o cara é especialista em história do Rock. Vive me falando dos álbuns e bandas históricas, é Iron Maiden pra cá, The Police pra lá... eu fico escutando e finjo que entendo alguma coisa. Rock pra mim é Bill Halley, vejam só, ainda estou around the clock.
Na verdade estou under the clock, agora que vão mudar o fuso horário, coisa que me deixa punk da vida. Mas, por enquanto, deixa pra lá. Parece que as escolas vão mudar seus horários e, dessa forma, Samuel, que mora longe da escola e precisa acordar antes das seis da manhã, não vai ter que levantar-se no escuro, embora talvez se questione: ora, se é pra mudar o horário da aula, porque não deixar o relógio como estava?
Mas, como eu disse, por enquanto deixa pra lá. Parabéns, meu filho, desejo que todas as horas de tua vida sejam boas.
Escrito por Antonio Alves às 04h03
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(confissões)
As santas horas do dia
Sou menino da província. Cresci numa cidade pequena, perdida nos confins da floresta amazônica –no dizer de um de seus cronistas, “a capital do fim do mundo”- e aprendi a gostar desse sentimento do ermo, do íntimo, do ignoto, esse tesouro oculto aos olhos do mundo. Vivi os tempos da distância e do sossego, em que o sentido da vida era uma verdade tão simples que estava ao alcance das crianças e o tempo era o eterno presente em que o avô que um dia havia sido neto caminhava de mãos dadas com seu neto que um dia seria avô –e tinham, ambos, o mesmo brilho eterno no olhar.
Havia o inverno, com o rio cheio pelas chuvas intermináveis, e o verão de praias iluminadas sob o infinito céu azul. E um dia com muitas horas: de acordar, de ir pra aula, de brincar, de almoçar, de dormir. Nessas horas infantis, pouco importava o relógio. E se alguma inusitada preocupação me levava a perguntar as horas, meu pai respondia com a velha brincadeira: “faltam dez minutos pra mais tarde”. Se eu insistia, variava: “faltam cinco minutos pra daqui a pouco” e ainda devolvia a pergunta: pra que você quer saber as horas?
Mas elas existiam, as horas, e eram marcadas pelos hábitos da província. Às dez da noite a luz piscava, avisando que a usina iria encerrar suas atividades e o fornecimento de energia elétrica seria interrompido, para retornar às quatro da tarde no dia seguinte, horário que mudou com a inauguração da usina nova e o fornecimento da energia 24 horas por dia. O sino da catedral chamava para a missa. A sineta da escola, que chamávamos de “campa”, anunciava o início da aula. Chegar depois de bater a campa era ter que voltar pra casa e explicar o atraso a uma mãe contrariada. O grito do leiteiro era pontual, às seis da manhã no início da rua, dois minutos em cada casa, onde o velho tocava o chapéu para dar bom dia, tirava o litro cheio da manta sobre o flanco do cavalo e colocava no lugar o litro vazio que um sonolento menino lhe entregava.
Mas ninguém nem nada marcava as horas tão certo quanto a Rádio Difusora, com as vozes infalíveis de seus locutores, o ritmo matinal do forró, as melodias para os aniversariantes logo depois das mensagens para o interior, as canções românticas ao luar. No final da tarde soavam os acordes da solene introdução de “O Guarani” e uma metálica e oficial voz do Brasil anunciava: “em Brasília, dezenove horas”. Era melhor apressar a brincadeira, começar o último tempo do jogo, fechar a caverna e dispersar a tropa, pois às seis horas convinha estar em casa, de banho tomado, pedindo a bênção a papai e mamãe.
Essas tais seis horas eram sagradas, “a hora do anjo”, pois marcavam o momento exato em que o mensageiro de Deus havia revelado à Virgem que ela haveria de ser mãe de um menino que salvaria o mundo. E enquanto o sol lançava seu último clarão no horizonte, o som da “Ave Maria” de Gounod enchia o ar da província e a vida de seus moradores com o mais legítimo frêmito religioso.
Não admira que esse menino, mesmo tendo se tornado um jovem rebelde e cheio de teorias revolucionárias, depois de adulto retornasse ao rebanho cristão do qual, em verdade, jamais saiu. Que buscasse a companhia de uma irmandade que canta “as santas horas do dia” e segue o calendário da lua. Que se orientasse pelas estrelas. Que rezasse, contrito, as velhas rezas entre velas, santos e promessas com que se pede chuva e saúde. Que balbuciasse, na língua do avô português, seu tímido amor e seu desejo de aconchego ao colo da avó índia.
Sim, toda a gente que viveu aquele tempo -em verdade um tempo de Deus na terra- é gente cristã legítima. Gente cheia de pecados, crimes e torpezas, de grandeza mesquinha e soberba miúda, traições e vinganças, avarezas e usuras, segredos guardados entre a alcova e o confessionário, ganância altas e invejas rasteiras, e a indisfarçável e transbordante luxúria nos olhares e nos gestos e toda a herança venérea da civilização e a tuberculose e tudo o mais que se possa lembrar ou imaginar, mas tudo, tudo mesmo, tudo tudo tudo envolto no imenso manto do perdão divino que se alcança na morte e se carrega para dentro da eternidade.
Menos as horas, que estas ficariam eternas sobre a terra, para todas as gerações futuras. O sol nasceria sempre às seis da manhã, com os pássaros. Estaria a pino no meio-dia, pois é no meio da jornada que o homem pisa na cabeça de sua sombra. Descansaria às seis da tarde, para que o ouro do dia cedesse o céu à prata da lua. E da meia-noite não se fala, pois que sua guarda não é segredo, é mistério, e as corujas sabem disso.
As horas seriam, per omnia saecula seculorum, os pontos de encontro entre a mãe natureza, ponderada e sábia, e seus filhos rebelados em lógica e civilização. As marcas rudimentares da enxada no solo, as sementes que os povos dos sertões carregam na capanga de couro para trocar com aquelas que os povos da floresta trazem no bisaco de algodão. A herança que deixaríamos aos meninos, para que crescessem e ensinassem aos seus filhos a pedir a bênção aos mais velhos.
Agora, que o mundo já se acaba e a província morre no olhar de meninos que envelheceram sem sabedoria, agora, que a vida é matéria plástica que se compra e se vende, agora, que os frutos brotam em prateleiras de supermercados e não tem sementes, agora, que novos cristãos enlouquecidos queimam a mãe em nome do pai, agora, que a impunidade torna o perdão desnecessário e ridículo, agora, que as palavras não tem significado e todos os números somam zero, agora já não há mais tempo sobre a terra.
Devo recusar ao mundo as poucas horas que guardei, para com elas, quem sabe, construir outra província, íntima e oculta, onde possam viver apenas os que, como eu, recusam o fim dos tempos. Nela haverá de novo um inverno de chuvas intermináveis e um verão de céu azul. Nela haverá um templo e na parede deste templo, de frente para a entrada, um antigo relógio marcará antigas horas com badaladas que serão as notas de uma música muito, muito antiga.
Escrito por Antonio Alves às 05h01
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...
Há quase 18 anos
Novembro de 1990. Em apenas dois estados, Acre e Amapá, os candidatos do PT tinham conseguido passar ao segundo turno das eleições para governador. Lula, que havia perdido as eleições para Collor de Melo no ano anterior e era a grande estrela da oposição, estava em Rio Branco para participar da campanha de Jorge Viana. Estávamos no aeroporto, aguardando um avião bimotor que os levaria aos municípios do interior. Além de Jorge e Lula, ia também a vereadora, recém-eleita deputada estadual, Marina Silva.
A conversa era descontraída. Lula repetia seu velho bordão de campanha: “o trabalhador tem o direito de ter o seu carrinho, sua casinha com ar condicionado, tomar sua cervejinha no fim-de-semana” etc. Nesse momento, Marina o questionou: “Mas Lula, nós vamos ter que criar uma alternativa aí. Porque, veja bem, se todo mundo tiver um carro e um aparelho de ar condicionado, quanta energia será necessária? Esse é um padrão de consumo insustentável”.
Lula não se abalou. Disse que isso era “conversa das elites” que queriam negar os direitos históricos da classe trabalhadora, e repetia incansavelmente a lista de coisas que todo mundo deveria ter. Marina ainda insistiu um pouco, falando na poluição causada pelos combustíveis fósseis e na inundação de grandes áreas para construir hidrelétricas, mas suas palavras pareciam cair ao chão após chocarem-se contra um muro, e a conversa morreu por ali. Mudaram de assunto, chegou o avião, eu voltei para o estúdio com imagens do grande líder para colocar no programa eleitoral.
Tanta coisa que eu devia ter filmado...
Escrito por Antonio Alves às 02h05
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(enquantos)
Porondeando

(Desenho feito por Felipe, filho de Mário Lima, muitas luas atrás, para uma crônica aqui publicada.
Hoje a crônica é o desenho.)
Escrito por Antonio Alves às 03h27
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p!
Soltando fogos
Marina saiu do governo, chutando o pau da barraca. Comemoram os barões do agronegócio, os madeireiros, pecuaristas e devastadores em geral. Comemoram mais ainda os amigos de Marina, aliviados por ela ter escapado com a vida e a dignidade intactas da armadilha política em que Lula a colocou. Agora vamos ver como ele se vira, sem a salvaguarda que a Ministra lhe dava.
Tem muita gente fazendo análises, diagnósticos, prognósticos. Não tenho a mínima vontade de escrever e nem de ler essas coisas cheias de lógicas e razões. Quero apenas comemorar o fato de que alguém, enfim, teve coragem de dizer: olha, Lula, pega teus 70% de aprovação e teu investiment greidi e enfia no PAC.
Como vão ficar as coisas? Ora, do jeito que já vinham ficando. É simples: chegou a hora, anunciada pelos profetas loucos dos barrancos acreanos, em que toda estratégia e tática se resume no lema “quem for tatu que cave, quem for macaco que se atrepe”.
A Terra treme? O mar balanceia? Estou cantando e bailando, viva São João!
Escrito por Antonio Alves às 23h04
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reflexão
Caro Toinho Alves, saboreei a sua "Quando digo que a política é uma merda, tem gente que se ofende". Encontrou longo eco em meu gosto para com as palavras arrumadas com sabedoria e as idéias construídas com sinceridade, recheadas com o bom humor característico das mentes privilegiadas. A propósito de assunto afim, ensaio essa reflexão a seguir. Perdoe-me se há excessos descritivos, ou pouca caracterização quanto ao estilo, sou pensador recente e escrivinhador idem.
Poder: usos e abusos
(contradições essenciais da política)
Torvelio de Oliveira
Penso que a política tem mesmo uma contradição essencial (definida aqui como aquele defeito de fabricação que compromete o desempenho da função para o qual o objeto foi criado). Bons e maus políticos certamente existem, dedicando-se os bons, numa simplificação proposital, à concretização de suas idéias para a coletividade e os maus, ao acúmulo de benefício próprio. Note-se que bons políticos, por esta definição simplificada e arbitrária, poderiam até ter más idéias que, em sendo verdadeiramente idéias em prol da coletividade, seriam necessárias, mesmo que equivocadas, para o exercício adequado do contraditório. (É verdade que as más idéias me cansam e é, com toda sinceridade, uma merda mesmo ter que ficar lidando com gente de visão estreita e capacidade limitada que a olhos vistos atrapalha a evolução da espécie. É o preço da convivência civilizada diriam alguns). Note-se também que, por essa mesma definição arbitrária, o mau político poderia ser facilmente chamado de mau caráter, vigarista, ladrão ou coisa pior. O que une ambos? O poder. Necessário tanto para concretizar grandes idéias, quanto para acumular grandes benefícios próprios.
O político, mesmo o bem intencionado, precisa buscar, antes de tudo, como pressuposto para seu sucesso, o poder. O poder para realizar. Se sem poder não se concretizam as idéias, tê-lo e acumulá-lo passa a ser essencial. E em sua busca é preciso convergir, agregar, construir consensos, ampliar a base, coisas do tipo. A busca regular pelo poder, no exercício diário da política cotidiana (leia-se apoio, influência), ou a cada quatro anos nas campanhas (leia-se votos), tende a tomar muito da energia despendida pela política e invariavelmente a afastá-la de suas metas e ideais. O caminho entre a idéia e sua concretização, em política, não sendo uma linha reta, metaforiza-se para mim, no trabalho do velejador que precisa andar em sucessivas diagonais, afastando-se e aproximando-se, ora para um lado, ora para o outro, jogando com as características de seu barco e a força e direção do vento que se apresenta.
A estratégia de zigue-zague precisa ser bem pesada. Se pouco ou nada se afastar na diagonal, insistindo em andar quase em linha reta contra o vento, não sai do lugar. Se afasta-se demais para os lados acaba perdendo o ângulo de retorno e pode chega a um lugar bem diferente do que o estabelecido na rota. Na política, seguindo a analogia, ou nada concretiza, ou se afasta demais de seus ideais, perdendo o sentido de sua ação. Ter que se afastar de seus ideais para concretizá-lo e ter como meta essencial o acúmulo de poder são, neste raciocínio, contradições essenciais da política. A possibilidade de sedução pelo modus operandi mais eficiente para o acúmulo de poder torna o jogo bastante mais perigoso, pois pode significar a necessidade de dissimular e mentir, bem como trocar poder (votos ou apoio) por favores pessoais ou diretamente por dinheiro. E o poder pode, como qualquer criança ou avó sabe, embriagar e corromper, pelo que é preciso muito, mas muito cuidado mesmo, ao adquiri-lo.
Diriam outros, não sem toda razão, que quase tudo do bom que o Acre em sua história recente fez, tem feito e está ainda, se Deus quiser, por fazer depende direta ou indiretamente da política. O que é forte evidência, sem sombra de dúvida, a favor de sua utilidade. Mas a utilidade dos remédios não dispensa a preocupação com seus efeitos adversos. A analogia com a ação de medicamentos visando a correção de uma realidade indesejada também se encaixa bem com certos aspecto da atividade política, e é fácil reconhecer que o processo de acúmulo e distribuição de poder pode gerar efeitos adversos graves (como o enriquecimento rápido e fácil de grupos que se beneficiam de mudanças econômicas resultantes da ação política e, juntos beneficiados e beneficentes, estão expostos a elevado risco de ocorrência de: relações perigosas, propostas indecentes e associações indevidas). Em farmacologia todos sabem: nos pequenos frascos se guardam grandes poções e já que a diferença entre o medicamento e o veneno pode ser a dose, é melhor prevenir do que remédio dar. Parafraseando, em portunhol, um conhecido em política: Hay que hacer política, pero sim assoberbar-se o perder-se en la imensidón de las ideas vazias jamás.
Escrito por Antonio Alves às 22h56
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carpe!
Mais capim
Toda essa confusão horária nos tirou a atenção do assunto mais importante dos últimos tempos, que foi tratado pelo Meirelles em expressivo artigo publicado no blog do Altino e no site da Biblioteca da Floresta (que, aliás, está ótimo, editado pelo Élson Martins e pelo Marcos Afonso). A devastação na “amazonía” peruana é, para o Brasil e particularmente o Acre, uma sujeira na água que vamos beber. Mas o Brasil não liga e o Acre está muito ocupado adiantando o relógio.
Quando digo que a política é uma merda, tem gente que se ofende. Mas vejam só: nenhum detentor de cargo político importante pode exigir do Peru a punição dos assassinos de Julio Agapito, isso seria meter-se nos assuntos internos de outro país, um erro político gravíssimo. É, mas levar “empresários” brasileiros pra passear no Peru, ou trazer os de lá para cá, é uma ação meritória que promove o “intercâmbio” e a “integração”.
Nos anos 70, lá na França, onde ainda havia gente com mania de pensar, Giles Deleuze e Felix Guatari criaram uma expressão interessantíssima: “modo capitalístico de produção da subjetividade”. Acho que descreve bem o que acontece com algumas pessoas que conheço. O capitalismo padroniza a mente. Agora estamos obrigados a provar que se pode ganhar dinheiro com a floresta, caso contrário teremos que concordar com os argumentos capitalistas para derrubá-la. Biodiversidade? Ou dá dinheiro ou vamos apelar para a monocultura. Índios? São pouco produtivos... E por aí vamos. Melhor dizendo: por aí vão –porque eu me recuso- os criadores do velho consenso econômico que constrói o mundo e a estrutura mental ajustada a ele.
E agora, pra piorar as coisas, alguns milicos neuróticos, saudosos da ditadura, fazem banzeiro nas águas da imprensa com seu nacionalismo de fancaria e dizem que para garantir a soberania nacional temos que tomar a terra dos índios e entregá-la aos fazendeiros. Mais uma vez nossas lideranças políticas concordam –senão com a forma, certamente com o “conteúdo”- e já se apressam em aprovar rigores contra as perigosíssimas ONGs que atuam na Amazônia.
Francamente, pensei que algumas dessas besteiras já tivessem sido superadas em velhos debates nos anos 80 do século passado. Mas a subjetividade capitalística se recompõe, é uma praga. Pelos hábitos, pelos sonhos de consumo, pelos confortos urbanos, pelas alianças políticas, pelo medo de perder o emprego, por todos os buracos do corpo essa erva daninha cresce e penetra.
O jeito é comprar outro terçado.
Escrito por Antonio Alves às 15h12
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.'.
Nem falar
Foi só escrever que o calor estava demais e pronto, bateu a friagem, democratizando a frescura e o clima de Brasília que agora impera em terras de Galvez. Bom pra mim, que precisava esfriar a cabeça. Ainda estou bastante contrariado com a decisão do Senado, de abolir o fuso horário acreano e anexar nosso estado ao horário pretendido pelos bancos, pela Globo, pelos políticos e seus seguidores que não orientam suas vidas pelo sol ou pela lua, mas pelas leis do mercado.
O prejuízo é inavaliável. Nenhum desses vitoriosos capitães do progresso consegue ter idéia do tamanho da cagada que fizeram porque não pensam em processos culturais e civilizatórios, mas em negócios. São aqueles que, como dizia Caetano Veloso nos idos de 70, “enxergam a década, mas não conseguem ver o minuto e o milênio”.
Pensei em armar-me de paciência e explicar, para estes senhores espertos e seus seguidores bobos, pela milésima oitava vez, os fundamentos de uma economia diferente do capitalismo ao qual eles se adaptam tão bem, uma cultura diferente da alienação urbanóide na qual estão mergulhados, uma utopia que pudesse salvá-los do vazio existencial ao qual o pragmatismo os condena.
Mas não adianta. Agora, são favas contadas. O presidente da República deles sancionará a lei “dentro de alguns dias”, como dizem em seus informes oficiais. Tenho, portanto, todas as horas do futuro para escrever minhas lamentações –pois não serão mais que isso.
Faço, por agora, apenas um aviso amigo. Ao desprezar a modesta opinião e a frágil resistência dos poucos que se manifestam contra essa desastrosa mudança, os vitoriosos defensores do novo confuso horário estão desligando a pouca sintonia que ainda mantinham com parcelas ao mesmo tempo elevadas e profundas da alma amazônica (que são minoritárias justamente por serem elevadas e profundas, pois a muito pouca gente é permitida maior distância no mergulho e no vôo).
Entendam como quiserem, ironizem à vontade. Sei o que estou dizendo.
E agora vou aproveitar um pouco a friagem, antes que acabe.
Escrito por Antonio Alves às 22h36
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Jogos de inverno
Agora a tarde se aproxima do final e há anúncios de chuva no vento que bate portas e janelas. Há pouco o calor estava insuportável. Imaginem: às duas e meia da tarde, o sol torrando tijolo e derretendo asfalto, o vento parado, o suor escorrendo por baixo da roupa, o cérebro boiando num charco de sonolência. Os sentimentos são meras variações do mormaço.
Os dirigentes da política e dos negócios, os “gerentes”, estão abrigados do calor insano. Circulam sequinhos em veículos climatizados, reúnem-se em salas transportadas de Brasília - os móveis, o ar e os computadores- diretamente para a Amazônia. Assim fresquinhos e eficientes, podem jogar “Projeto”, o videogame dos grandes investimentos e das grandes decisões.
No bairro Eldorado, em casas de madeira, baixas, cobertas de zinco ou amianto, coladas uma às outras, sem água e com o esgoto correndo em quintais tão pequenos que não podem abrigar sequer algumas galinhas ou meia dúzia de árvores, outras pessoas também se reúnem para jogar outro jogo.
O entardecer que revela a lua crescente talvez adie a tempestade e o final das partidas.
Escrito por Antonio Alves às 19h46
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jornal de ontem
Caiu, caiu...
Aconteceu de algumas pessoas inocentes acreditarem na brincadeira que fiz ontem aqui, em memória do mestre José Chalub Leite, no décimo ano de sua partida. Quando editava o extinto jornal O Rio Branco, Zé Leite costumava aprontar brincadeiras no 1º de Abril. Num ano, durante uma greve dos bancários, deixou os sindicalistas furiosos ao noticiar que a greve tinha acabado, o que levou a uma confusão na porta dos bancos no encontro entre os clientes ansiosos e os piquetes grevistas. Em outra vez, anunciou que o presidente da CBF passaria uma hora no aeroporto de Rio Branco, esperando o avião para Manaus, ocasião em que daria entrevista coletiva e deixaria fotografar a taça Jules Rimet. No dia seguinte, o batalhão de repórteres, fotógrafos, radialistas e cinegrafistas comia moscas no saguão do aeroporto enquanto o Zé dava risada. Só se arrependeu no ano em que anunciou a chegada da Xuxa ao Acre, pois, cedinho, foi acordado pelo filho com pedidos insistentes de ir ao aeroporto receber a estrela. Lá estavam centenas de pais desesperados e crianças desoladas.
Zé Leite tinha saldo e cacife pra fazer coisas assim. Não posso chegar nem perto disso. Contento-me, entretanto, em provocar meia dúzia de telefonemas entre os controladores de mídia para, em poucos minutos, garantirem a tranqüilidade de seus chefes com a segurança de que tudo não passa de um primeiro de abril.
Quem conhece o rebanho acreano sabe que Elson Dantas, proprietário mas não mandatário, jamais tomaria a decisão de fazer mudanças no jornal Página 20 sem antes consultar o escalão superior. E todo mundo sabe que a turma dos degraus mais altos sofre de síndrome do pânico com qualquer possibilidade de perder o controle sobre uma linha, uma frase, uma palavra que se publica no jornal da casa. Irreverência e verdade é muito bom pra quem está na oposição, não tem nada pra perder. Varadouros levam ao passado, utopias pertencem à História.
Liberdade é pra quem quer, não é pra quem pode.
Escrito por Antonio Alves às 11h51
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velhas alegrias
Como nos bons tempos
O trabalho me faz viajar, de repente, por lugares inesperados. Agora mesmo ando entre Minas e Brasília, e como são caras essas lan houses daqui! Mesmo longe, entretanto, o Acre me acompanha –ou por telefone ou por encontros com companheiros nas reuniões da vida, acabo sempre sabendo as últimas. E a última que fiquei sabendo, por fonte fidedigna, é uma boa.
Está tudo acertado e, a convite de Elson Dantas, o velho jornalista Elson Martins vai promover uma renovação no formato e no estilo do jornal Página 20. Entre outras coisas, Élson Martins quer fazer retornar as grandes reportagens sobre temas regionais e dar mais agilidade à edição online do jornal que, hoje, apenas reproduz a edição escrita. Para isso vai convocar o jornalista e blogueiro Altino Machado, que se somará à equipe já existente e que será mantida.
Sendo assim, já me sinto também convidado, embora ainda não o tenha sido mas, enxerido como sou, vou me oferecendo para fazer novamente uma coluna diária, no estilo da que fazia nos anos 80 no extinto jornal O Rio Branco, sob a editoria do saudoso Zé Leite. Acho que podemos relembrar a liberdade e criatividade que demonstramos naqueles tempos bons e difíceis. Agora com mais facilidade, que ninguém é de ferro, mas com a mesma gana de descobrir novos caminhos.
Os antigos, que já trabalham na redação lá do céu, os que nos ensinaram a arte, ficarão satisfeitos.
Escrito por Antonio Alves às 13h21
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orabolas
Abuso
Mais um bloco de 400 km2 se desprende da Antártida e derrete no mar, mostram as fotos espetaculares dos aviões e satélites. O aquecimento global encerra sua temporada no hemisfério sul e anuncia novos lançamentos para os continentes do norte nos próximos meses. O fim do mundo é show.
Enquanto isso, vou transitando em meio à irreflexão e as irresponsabilidades cotidianas da província fuxiqueira, catando milho nos teclados irregulares das lan houses enquanto espero os proventos para pagar a conta do telefone e ter novamente internet em horário impróprio para menores.
Meu velho pai, que, como bom cearenço d’antanho, costumava exclamar “vôte!” nestas situações, e que costumava censurar meu modernoso “putzgrila!” que ele jamais conseguiu compreender, certamente ficaria desgostoso ao ver meu filho dizer “oh, shit!” quando tem sua life exterminada em uma etapa mais difícil do game.
O mundo passou da conta, realmente abusou.
Pretendo, ainda este ano, recuperar a invisibilidade.
Escrito por Antonio Alves às 16h43
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(velhas palavras, antigos silêncios)
A pedra
Havia uma pedra sobre a mesa. Seu nome era Silêncio. Tinha as retas formas de um cubo, com lados e ângulos perfeitamente exatos. No entanto, por algumas ranhuras ou sutis variações na cor, percebia-se que não havia sido cortada por qualquer tipo de máquina, mas esculpida em longo e paciente trabalho. Embora inorgânica e dura, era feita de um silêncio humano, não havia dúvidas.
Estava sempre lá, sobre a mesa, irredutível. Não havia meio de movê-la, nenhuma alavanca a deslocaria sequer um milímetro. Tampouco era possível quebrá-la. Era invencível. Nenhum calor a derreteria, nenhum frio poderia fazê-la rachar. Sobre ela poderia cair a água durante séculos sem subtrair-lhe um átomo sequer. Era inteira e, oposta ao átomo, indivisível.
Não sei a impressão que causava aos outros, pois em sua presença estive sempre sozinho. Acostumei-me a vê-la ali, sobre a mesa. Muitas vezes fiquei, horas a fio, sentado, a contemplá-la. Não havia nisso a mais remota esperança de entendimento. Não havia mistério a decifrar, não havia mensagem. Seu silêncio era absoluto.
Um dia desapareceu, não sei como. Olhei para a mesa e não mais a vi. Então sentamo-nos, eu e os outros, para refeições e conversas animadas. Tomávamos vinho, comíamos frutos secos, inclinávamo-nos com os cotovelos sobre a mesa em confidências e risos. Ninguém jamais falou sobre ela, era como se não tivesse existido. Mas às vezes, de maneira que não consigo explicar, sinto que ainda está ali, no mesmo lugar, sobre a mesa, sem que a vejamos. Imagino que aconteça o mesmo aos outros, quando inesperadamente mudam o assunto da conversa, como se evitassem a aproximação de uma palavra ou comentário que pudesse lembrá-la. Ou quando alguém pergunta se os demais querem outra bebida, ou quando um de nós boceja e diz que está na hora de dormir.
Não tenho certeza de um dia tornar a vê-la. Mas imagino que quando eu morrer e meu espírito se desprender do corpo inerte sobre a cama, atravessarei a sala e a contemplarei, por alguns momentos, sobre a mesa. Então partirei.
(Publicado no jornal Página 20, em julho de 1995)
Escrito por Antonio Alves às 16h33
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Ave
Jornalismo.
Não achei nada mais religioso e prático
do que rir da crença dos estudantes de jornalismo. Essa faculdade. Esse ateliê
de lolitas. Aquilo tudo me abre o apetite de verdade. Esse bistrô de típicos,
esse deboche, essa anedota supersticiosa.
Essa coisa toda
viciada, diluída e preguiçosa, esse enfeite de puta pobre. As pessoas se
espantam, eu implico com elas. Elas são atraídas pelo que há de mais psicopata e
sujo e decadente e morto. Pederastas, pedófilos, gays, otimistas, crentes,
jornalistas... mas não posso provar nada.
(Publicado
por Caio Campos, opinista esteta comportamental –há suspeitas de que seja,
também, estudante de jornalismo-, no blog dublesdepoeta.zip.net)
Escrito por Antonio Alves às 22h17
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