o espírito da coisa


Um minuto da vossa atenção, por favor.

Este blog agora é arquivo.

Pode passear à vontade nas edições entre 2004 e 2008.

Há sempre algo interessante para se ver ou rever.

Mas para novos textos, acesse o novo blog, no endereço abaixo.

Coloque nos seus favoritos ou mude o link para acessá-lo.

http://tempoalgum.blogspot.com

Veja também outros textos e autores no site www.semdominio.org

           



Escrito por Antonio Alves às 16h21
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Mais dia

 

            Decidi dar por encerrado o ano e começar logo outro. Aqui, no íntimo, os dias já mudaram. Terão mudado, talvez, nas boas horas que passei na Terra, curando as bicheiras do Rapaz -aquele cachorro vadio- e olhando o açude encher depois de cada chuva. Já disseram que sou lento, talvez dê certo começar antes.

            Também decidi não me preocupar. Um sonho me avisou. Passei muito tempo com medo de não ser suficientemente engraçadinho e diplomático, preocupado em não ferir as susceptibilidades de alguém. Bom, às vezes posso não estar inspirado e dizer palavras inadequadas, mas o importante é que sejam sinceras e o resto se ajeita. De minha parte, também tenho engolido muito sapo e até agora nem morri por isso.

            E já não ligo se trezentos me amam e quatrocentos me odeiam, e nem uns nem outros pensam por um minuto no que digo. Resolvi não sofrer, só isso. Palavra é semente que o vento leva e ninguém sabe onde vai brotar. Muito aprendo com as samaúmas.

             De todo modo, não é bom a gente ficar se oferecendo. O melhor mesmo é ir passando, cumprimentando a todo mundo com um toque na aba, parando e tirando o chapéu quando encontra padre ou moça bonita. A vida é uma estrada, dizem, e ninguém sabe o que tem lá na frente. Tem gente que se convida ou fica reclamando por não ser convidado. Mas a mim, quem me merece? Eu mereço a estrada e tenho perna é pra andar.

            Não gosto de muita festa, mas também não sou de chorar desgraça. A essa altura da vida, já conheço minhas manias e mantenho algumas preferências. Não troco aquele livro velho, lido e relido e trelido, por certas novidades muito apresentadas e de pouco proveito. Não uso enfeite -nem corrente, nem anel- e o melhor relógio é o tempo. Gosto do tabaco preto, não muito velho e ainda molhento, o café forte e amargo, mas tomo de qualquer jeito. O que me dá gastura e desimpaciência é ver gente falando da vida alheia, não é bom pra minha saúde e procuro sair de perto. Tem gente que fala mal até de si mesmo, é uma doença triste.

            Os tempos são difíceis, mas são os que temos. Vez em quando tenho que pegar o pau pra me defender ou a algum inocente, mas não saio correndo atrás. Passa um ano, depois outro, a lança vai virando bastão e vou ficando mais retirado até que um dia só me vê quem procura. Mas demora, não é pra esse ano ainda não. Esse que, aliás, tou começando mais cedo porque tenho muita coisa pra fazer.

            Estou por aqui.


 

 



Escrito por Antonio Alves às 16h17
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Menos dia

A cidade e eu congestionados. Ela atulhada em compras de Papai Noel. Eu, indisposto e resfriado, esperando que o menino Jesus venha me remir. No ar, além das viroses, a chatice de sempre e a concentração habitual de umidade e política. Interesses e conveniências tornam insuportável o trânsito no Centro. Conversas corporativas e trabalhistas lotam as agências dos bancos, em intermináveis e lentas filas. Caixas eletrônicas emitem contracheques em ritmo pós-industrial, e as filas se transferem para as financiadoras de dinheiro fácil sem consulta ao serasa e o presidente diz comprem, comprem, comprem pois só o consumo nos salvará da crise. E eu espirro, olhando o céu para saber como estará o tempo nesta noite de antevéspera, calculando o tempo da caminhada e da fervura da água para o chá de gengibre e do sono na rede até que desapareçam as dores e um passarinho venha cantar no galho da goiabeira.

Um ano bom e difícil, este que termina. Números redondos da morte: 100 anos de Plácido, 20 de Chico Mendes, 10 de Zé Leite. Tivemos nossa cota de lembranças e cobranças. Nós, os vivos, os muito vivos e os nem tanto. A Bossa Nova fez 50, maio de meiaoito fez 40. Estão, estamos, todos velhos e alguns nem lembram mais de nada. O mundo está acabando, que pena, era um mundo interessante apesar dele mesmo e de nós. Talvez outro mundo seja possível, com redução das emissões de carbono, justiça social e muita vitamina C.

Mas já começou a chover de novo e aí, já viu, só dá pra fazer artesanato olhando na tv o povo brasileiro se mudar levando a cidade na cabeça.



Escrito por Antonio Alves às 15h37
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Como não guardar gigabytes

Perdi meu pendrive de 4 gigas, que usava desde o ano passado realizando o sonho que sonhei, maravilhado, desde a primeira vez que vi alguém portando essa maravilha, essa coisa linda que é um penduricalhozinho de nada, menor que um chaveiro, guardando miles e miles de palavras e números e imagens, coisa que me deixou imediatamente impressionado e ansioso por possuir e andar pra todo lado levando tamanho pequeno tesouro e, afinal, nem sei como o perdi, agora que não tenho um telefone com o qual me conectar à internet e estou tão mais dependente deste superarmazém de bites para enfiar, prazerosamente, nos buracos de usb dos computadores das lan houses, mas, enfim, simplesmente não o encontrei mais na bagunça de papéis e roupas e bolsos de mochilas e depois de algum tempo desisti e resolvi comprar outro e comprei, maior, de 8 gigas, capaz de guardar uma montanha de informação, embora minha mão coçasse no bolso enquanto meu olho não despregava daquele outro, de 16 gigas, um exagero, sem dúvida, onde se pode guardar um computador inteiro, uma coisa inimaginável que atiçou meus instintos mais primitivos, que só foram aquietados pela contenção financeira a que me ative pois calculei que, afinal, devia custar o dobro e deveria contentar-me com meia montanha desta vez, o que foi suficiente e me deixou deveras contente por alguns dias até que, ontem, dei pela falta de meu novo médio tesouro mas aquietei-me ao lembrar que o havia colocado no bolso daquela camisa que havia tirado e jogado sobre a mesa e que podia pegá-lo novamente mais tarde e, no entanto, agora estou muito desolado com o que fiz há poucas horas, quando me veio a idéia de lavar umas roupas e não me ocorreu de revistar-lhes os bolsos e lembro de ter colocado a tal camisa junto com outras num balde com água e sabão e amanhã, quando retornar ao local de tão descuidada ação, certamente constatarei que esta tecnologia moderna e maravilhosa não se pode pendurar numa corda, ao sol, para secar.

 



Escrito por Antonio Alves às 07h23
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taí

 



Escrito por Antonio Alves às 16h04
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...

Estavam lá, na caixa de comentários, os parágrafos de Marisa A, que juntei e deu no texto abaixo.

 

Simples assim

 

Estava eu ali, me expondo à avaliação de uma banca num concurso pra uma vaga de professora, tentando adivinhar: o que pensam eles e elas sobre mim? Imagino que estão tentando descobrir: será ela uma marxista positivista? Uma marxista ortodoxa? Uma marxista racionalista? Uma marxista vulgar? Uma marxista dos novos temas e abordagens? Ou nenhuma delas. Sugiro: façam um mapa conceitual pra chegar ao esconderijo do tesouro. Nessas coisas de identidade, tem horas que até eu me perco de mim. Às vezes acho que sou uma marxista idealista surrealista. Marxista num plano teórico das ciências porque um historiador precisa investigar. Idealista no plano filosófico, onde descubro um mundo, construo e ressignifico idéias (quase sempre utópicas), isso porque um historiador precisa também pensar. Surrealista porque precisamos das artes para expressar idéias reais e irreais.

No plano geracional sou uma quarentona. No familiar, mãe, filha, irmã, avó, sobrinha etc. No plano étnico sou uma latino-americana descendente de europeus alemães e italianos. No regional sou brasileira sulista-nortista acreana amazônida. No político, uma petista frustrada e sonhadora (sem mais detalhes). Dizem que sou feminista. Não sei, só sei que machista não sou. No estético: só faço a unha quando tenho dinheiro pra isso. Pertenço ao grupo das separadas solteiras.

Enfim, sou como o eterno vir-a-ser de uma semente de Flamboiam. Diz Noberto Bobbio: “somos aquilo que lembramos” -e Ivan Izquierdo completa “...e aquilo que decidimos esquecer”. Como querer nem sempre é poder, não somos o que decidimos, mas o que conseguimos ser. Cada um dá o que tem. Simples, não?

 

 

Brevíssimo comentário

            Não acho nada simples. Apenas não sei como é que uma pessoa consegue ser tudo isso. Eu tenho dificuldade de andar e atender ao celular, não escuto música enquanto escrevo, nunca tentei assobiar e chupar cana. Não me lembro mais como é ser marxista. Vou levar dez anos pra aprender a ser um cinquentão, e aí já terei sessenta. Tudo bem, estou sempre atrasado, mesmo. E pertenço ao grupo dos que não pertencem a grupos. O problema é que a tal identidade é uma capacidade, que para mim se torna cada vez mais difícil, de ser idêntico a si mesmo. Porque já não sei por onde anda si mesmo, estava aqui ind’agorinha. Me lembro apenas de ter dito, alguma vez, não sei quando, que eu era muito distraído mas um dia me distraí. Ou coisa parecida. Sei lá, acho que tem momentos em que a gente fica sem tempo até pra vi-a-ser, quanto mais pra ser. Mas de uma coisa não esqueci, também concordo: cada um dá o que tem. E quem não tem, tira.

            Agora espero a contribuição de outr_s leitor_s. O problema dos blog costuma ser a proliferação de anônimos. O espírito da coisa é, ao contrário, a explosão de identidades.



Escrito por Antonio Alves às 16h59
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brevidades

de passagem

 

            Fui a Brasília para uma reunião no IPHAN, e foi muito bom saber que há vida inteligente em regiões remotas do governo, resistindo apesar dos poucos recursos. Na volta parei em Porto Velho para um debate no Festival de Cinema Ambiental –Festcine- que já entrou no calendário brasileiro de cinema e vídeo, muito bom e heroicamente realizado em Rondônia, terra em que ambientalistas enfrentam dificuldade em dobro. Não consigo imaginar como é morar em Porto Velho e ser contra as hidrelétricas no rio Madeira.

            De volta ao velho novo Acre, administrando o cansaço da viagem e umas tantas reuniões, seminários e oficinas. Querendo parar pra escrever, pensar, conversar com o silêncio. Ando com tantos pensamentos que já não sei se atravesso as ruas ou se elas me atravessam. Marx anunciou um tempo em que “tudo que é sólido desmancha no ar”. Agora sinto que o próprio ar se desmancha em algo mais sutil. Tudo que é identidade se esquiva, retrai, oculta e escapa. Ser é apenas sendo. Zé Leite dizia que no Acre “o provisório é definitivo”, mas desconfio que isso é só o começo e que talvez não tenha fim.

            Dois dias seguidos na Terra, é do que preciso.



Escrito por Antonio Alves às 19h46
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!

Ôba, ôba, Obama

 

"A lua foi alcançada afinal

 Muito bem

 Confesso que estou contente também".

                                                            (Gilberto Gil - Lunik 9)

 

 



Escrito por Antonio Alves às 17h00
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transgenias

É assim que acontece

 

O ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, se disse "decepcionado" com a venda das empresas brasileiras de biotecnologia Alellyx e Canavialis para a americana Monsanto. "Não sei quanto a Votorantim colocou nessas empresas ao longo desses anos, mas o setor público colocou muito dinheiro", disse Rezende. "A venda para qualquer grupo estrangeiro é decepcionante". Segundo Rezende, a Finep aprovou R$ 49,4 milhões em subvenção econômica para pesquisas nas empresas nos últimos três anos - dos quais R$ 6,4 milhões já foram desembolsados. "São duas empresas que receberam investimentos do governo e, justo quando esse investimento estava amadurecendo, foram vendidas por um preço bastante módico", disse.

(OESP, 5/11, Negócios, p.B17)



Escrito por Antonio Alves às 14h27
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brr

Perigos deste mundo

 

 

POLÍTICAS

            Um dia desses eu ia pra casa, caminhando despreocupadamente e, sem perceber, já ia passando entre duas políticas que se enfrentavam, uma de cada lado da estrada. Parei imediatamente e fiquei quieto, rezando para que não me vissem. Não tive medo de danos físicos -que isso só as políticas públicas podem causar-, essas políticas comuns de beira de estrada não são tão perigosas, mas podem causar enjôo, confusão mental e panema, um sujeito pode ficar enrascado durante muito tempo se for atingido pela ação de uma delas. De modo que fiquei ali, observando, enquanto elas se desafiavam e gastavam, uma com a outra, seus arsenais de maledicência e mau-olhado e inveja e todo tipo de reima.

            Fui salvo por um cachorro, que vinha abanando o rabo pela beira do caminho e, ao avistar as políticas, parou com os pelos eriçados e ficou latindo –não sei se bravo ou assustado. Uma das políticas voltou contra ele sua maldosa atenção, a outra se ocultou atrás de um arbusto um tempinho de nada, pouco mais que meio minuto, mas foi o tempo certo para eu passar, ligeiro e avexado. Subi a ladeira e respirei, aliviado, quando fiquei fora do alcance das duas peçonhas e também do cachorro, cuja índole eu desconhecia.

            Comprei uma baladeira do filho do vizinho e agora ando pela estrada com os olhos bem abertos. Se alguma política aparecer, meto-lhe uma pedrada bem no meio da testa.

 

 

AGENDAMENTOS

            Outra coisa triste é agendamento, é difícil que ocorra algum sem vítimas fatais. Ainda ontem aconteceu um terrível, coletivo, no centro da cidade, envolvendo várias agendas. Quando vi o alvoroço, a duas quadras de distância, tratei de cortar caminho pra não passar por perto. Evito agendamentos o máximo que posso, não possuo agenda e não pego emprestado de ninguém. Tem gente que bebe e depois sai agendando por aí, Deus me livre.

 

 

DEMANDAS

            Mas as criaturas mais perigosas são as demandas, inda mais porque sempre andam em bandos. Acho que é matilhas que se chama, quando são demandas de terra. Quando são demandas d’água, não lembro qual é o coletivo usado. Sei que são igualmente terríveis, deve-se ter o maior cuidado antes de atravessar um rio, pois pode estar infestado de demandas. As da terra, pelo que sei, podem estraçalhar uma pessoa descuidada. Só os grandes domadores conseguem ter controle sobre elas. Ainda assim, dizem que há freqüentes casos de demandas enlouquecidas que atacam seus próprios criadores.

            Mas a pior de todas é a demanda qualificada. Essa ataca sozinha, surge inesperadamente e salta no pescoço da vítima indefesa. Não há quem escape. Ainda bem que são raríssimas e não freqüentam casas pobres nem andam nas periferias, preferem os gabinetes dos grandes poderes. Parece que tem dificuldade de sobreviver em ambientes não climatizados.  



Escrito por Antonio Alves às 14h32
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i.

Que não nos ouçam

 

            Ainda essa coisa do horário. Vou insistir nesse assunto pra colocar uns pingos e pontos nos lugares certos. Começo com uma conversa mansa, assim como quem não quer nada, um papo de índio, mas depois chegarei às políticas. Acompanhem.

            No encontro indígena recentemente realizado na terra dos Puyanawa, a primeira desarrumação na programação oficial foi por causa do horário. O quinto Encontro de Cultura, que deveria ser importante, estava espremido e encaixado nos intervalos dos primeiros Jogos da Celebração. Tudo bem, afinal os jogos também fazem parte da Cultura, embora sem toda aquela estrutura mental olímpica e sem a organização industrial dos “cariús” (palavra kaxinawá para designar os não-índios). Vai daí que a coisa sempre acaba sendo do jeito que é pra ser.

Pra começar, a maioria das aldeias não aderiu à mudança no horário oficial e logo no primeiro dia os técnicos do governo tiveram que ficar uma hora esperando pelos atletas. Depois surgiram os contratempos naturais: chuva, calor, barriga cheia depois do almoço, sono depois de uma noite de pajelança, essas coisas. Ainda teve a costumeira epidemia de diarréia, o consumo exagerado do rapé, uma caiçuma muito fermentada e o alvoroço hormonal da juventude ali reunida. Resultado: o horário predominante ficou sendo o velho tempo amazônico que não tem medida nem nunca terá.

            O tempo no Aquiry “vareia” muito, mas dá pra observar alguns horários básicos, mais ou menos consensuais. Uma das possibilidades é dividir o dia em onze horas, a saber: manhãzinha, manhã, antes do almoço, almoço, depois do almoço, tarde, tardezinha, boca da noite, noite, tarde da noite e madrugada. Há duas vantagens nessa divisão: a primeira é a exatidão amazônica, que não sovina minutos nem regateia segundos, permitindo que as coisas sempre comecem na hora certa e ninguém chegue atrasado; a segunda é a facilidade para converter em outras convenções, a gosto do freguês, e até os mais formalistas podem ser atendidos, se fizerem questão de acertar seus relógios.  

            Assim sendo, quando fico insistindo no retorno ao horário antigo é que estou sacrificando minha coerência em favor de um debate interessante e, ainda por cima, tentando salvar um velho conhecido, o Estado acreano, tão mais amigo quanto menos assimilado pelo Estado brasileiro –este, incontestavelmente hostil em todas as épocas.

Por partes: a incoerência é porque eu deveria, na verdade, deixar de lado qualquer horário oficial, novo ou velho, e incentivar a vivência de outras temporalidades e a liberdade de inventar outros horários. Embora um horário oficial seja, em certa medida, necessário, o horário único é uma ditadura insuportável. É como o calendário oficial: serve para que os empregados recebam seus salários no dia certo e as crianças possam ter férias das escolas, mas tem pouca valia para a vida do corpo e do espírito. Para esta valem mais outros calendários –geralmente femininos: da lua, das águas, das árvores, das estrelas etc.   

Quanto ao Estado acreano, se mantivesse um funcionamento mais próximo aos ciclos naturais, poderia guardar um certo espírito de diferença em relação ao estado colonial brasileiro e, eventualmente, quem sabe, servir como apoio às lutas do povo. É exatamente o contrário do que dizem os propagandistas do novo horário, que pensam que a Revolução Acreana foi feita para anexar o Acre ao Brasil. Que nada, antes disso a Revolução criou um Estado Independente, uma pátria de lunáticos que o Estado brasileiro tratou logo de desarmar e dissolver. O novo horário –hora de Porto Velho, Cuiabá e Manaus- não é revolucionário nem autonomista; na verdade, fundamenta-se numa submissão ao poder central igual à do antigo Território Federal.

E os políticos que cavalgam o chamado “aparelho de Estado” nem percebem que estou lhes proporcionando a chance de restabelecerem sua comunicação, se é que algum dia a tiveram, com a história e a cultura verdadeira do povo verdadeiro (os mais atentos sabem que há plurais ocultos na sentença: histórias, culturas, povos). A única coisa que se exige é que tirem o sapato na entrada ou, ao menos, desçam do salto e não venham com suas mesquinharias eleitorais.

Estou bem na entrada, vendo como se comportam. Um deles veio querendo tirar sarrinho com a minha cara, respondi logo com um desaforo. Atirarei quantas pedras forem necessárias para manter os urubus afastados. E faço questão de não personalizar a briga. Por exemplo, não vou aproveitar o assunto pra fazer política contra o Senador Tião Viana, que foi o principal (não foi o único) responsável pela aprovação da desastrosa mudança de horário. O mandato do Tião no Senado é produtivo e útil em muitas outras questões, sua respeitabilidade é um patrimônio do povo que o elegeu, é algo a ser preservado. E além do mais, a eleição já passou e a próxima é daqui a dois anos. Quem quiser fazer seu joguinho eleitoral vai ter bastante tempo pra isso.

Sei que é difícil para os habitantes dessa terra politiqueira compreenderem que o governador (anterior, atual ou futuro), seja ele quem for, é apenas um peão no tabuleiro e que estamos lutando contra peças muito mais poderosas. Mas vamos começando assim, devagarinho, como se fosse uma conversa sobre o igarapé que passa na nossa aldeia ou, digamos, uma conversa sobre o tempo. Deixa que pensem que só estamos fazendo barulho.

Vocês acham que vai chover, por esses dias?



Escrito por Antonio Alves às 19h06
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Briga da hora

 

            Bem, aqui estou de volta à cidade depois de um Papo de Índio muitíssimo interessante, que não tardarei a contar. O encontro indígena foi na aldeia dos Puyanawa, em Mâncio Lima, uma vila já bastante urbanizada mas que teve a lucidez de não aceitar o tal horário novo, como está acontecendo, aliás, em várias outras aldeias e comunidades do Juruá.

Mas o mundo Terra e seus povos ficam pra depois, hoje quero só deixar um recadinho sobre o fuso horário. Leio no blog do Altino (sempre ele!) que o deputado federal Flaviano Melo, apoiado por outros parlamentares, está encaminhando a realização do referendo popular sobre a mudança sobre o assunto. O que impressiona é a desfaçatez de convocar o referendo para as próximas eleições. Daqui a dois anos!

Flaviano foi a favor do horário novo, enviou carta ao senador Tião Viana pedindo que este intercedesse junto ao presidente Lula para mudar o horário do Acre. Sérgio Petecão é outro que apoiou, animadamente, o projeto do Tião. Agora, que já sentiram a revolta de uma grande parcela do povo, estão tentando livrar a pele.

Imaginem a próxima eleição: duas vagas do Senado em disputa, uma concorrência insana pela cadeirinha federal que a oposição consegue fazer... e o povo vendo a questão do horário, depois de dois anos e meio, transformada em política partidária.

Não dá pra aceitar. Vou botar a banquinha na Esquina da Alegria. Não dá pra contar com a CUT, que promoveu uma consulta desorganizada em algumas escolas e nem divulgou o resultado. (Percebendo o repúdio da maioria ao novo horário, o Manoel, em um acesso de fúria peleguista, mandou jogar fora os papéis.) Mas talvez apareçam alguns sindicalistas independentes (ainda existem?) pra ajudar. Por onde anda aquele grupo de estudantes da UFAC? Vamos lá. Esperar pelos políticos é roubada.

Tenho certeza de que dá pra juntar milhares de assinaturas a favor de um referendo já, agora, imediatamente. Pra divulgar temos os blogs, porque na imprensinha oficial não sai nada mesmo. Pega a baladeira aí, menino. Bota palanqueta no bisaco, que vamo guerriá.



Escrito por Antonio Alves às 15h05
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(ora,)

Onde estávamos?

 

            Agora que acabou a refrega eleitoral, que tal voltarmos às coisas realmente importantes? Pois bem, vou começar a incomodar os mui dignos parlamentares federais acreanos para que convoquem logo o tal plebiscito sobre a mudança de horário. Acho que já deu pra perceber que o tal horário novo ainda não foi –nem vai ser- aceito por uma boa parte da população que, por acaso, talvez seja a maioria.

            Não me importo de decidir o assunto agora no verão sulista, inverno amazônico, quando o sol nasce mais cedo e o novo horário fica quase certo, ao mesmo tempo em que as férias escolares diminuem a revolta das crianças sonolentas e de seus pais. Será fácil lembrar a todos que em fevereiro e março, quando retornarem as aulas, as seis horas da manhã no novo horário voltam a estar mergulhadas na escuridão.

            Tem também a tradição, a cultura, a espiritualidade e outros fundamentos mais importantes nessa questão, aquelas coisas que o povo sabe e os políticos ignoram, os capitalistas desprezam e os doutores discordam. Não interessa. Façam, senhores, porque nós queremos e vocês tem que nos atender, mesmo sem nos entender.

            Ou teremos que apelar para o Cabide?

 

(Vou ali na Terra Poyanawa, assistir os jogos indígenas e o encontro de cultura. Quando voltar, se não tiver novidades, vou botar banquinha na Esquina da Alegria e começar a coletar assinaturas.)



Escrito por Antonio Alves às 00h23
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(primaveras)

por Mag

 

            Só por tua causa, neste dia em que ficas, assim digamos, tão mais adulta, retorno à página em branco e tento mais uma vez escutar o silencio que torna possível –se algo aprendi com Drummond- penetrar no reino das palavras. Não estou ainda pronto para a poesia, mesmo neste dia de primavera que na floresta devastada amanheceu e agora anoitece quente e esfumaçado, político e agitado, com mais bandeiras do que flores. Mas é a tua primavera, que há de ser mais bela em teu derredor, e nela brota teu dom, teu domínio, que desde tempos passados me desperta, me inquieta, me avexa, me sacode onde quer que eu esteja e em qualquer profundidade do sono. Então deixa-me dizer duas palavras antes de recolher-me à companhia noturna do barro e das folhas secas em que anseio encontrar, no ermo do mundo, a vontade de viver que desperdiças no asfalto da cidade louca.

            Faz-me falta essa lucidez que atiras, displicente, pela janela do carro. Como poderia eu te amar e te compreender, sendo ainda um menino bobo chegando do interior e trazendo a província nos gestos hesitantes, legítimo possuidor de uma burrice atávica e um medo animal que me obrigava a fugir do fogo e da luz e de qualquer brilho que não fosse da lua? Entretanto te amei e compreendi para sempre, naquele instante à entrada do Anfiteatro 9, quando percebi com encanto e espanto a existência de algo, alguém, no mundo, mais alta que a minha pretensão e maior que a minha timidez. Em todos esses anos estive ao teu lado (mil léguas ou nada), boquiaberto e calado, assentado sobre minha sombra enquanto davas voltas ao mundo: casavas e descasavas, engravidavas e parias, fazias e desfazias as malas, gargalhavas e choravas, rasgavas a carne do mundo e a tua própria com as garras da ironia. Eu, trêmulo, comia folhas e murmurava: como pode alguém ser assim, como pode alguém ser?

            Faz-me falta essa coragem que gastas, irresponsável, no mundo dos lobos. Passeias com elegância de moça bonita em meio às unhas e dentes, uivos e ganidos. Arrancam um pedaço do teu braço, olhas para o lado com um sorriso e comentas, prática e objetiva: estou mais leve, agora. Dá pra morrer de raiva vendo o desprezo com que chutas as mais caras ilusões do poder, esses ouvidos moucos que fazes às mais tentadoras propostas de comprar tua alma, como se a alma fosse só tua e pudesses gastá-la à vontade em deliciosas contradições, em pequenos luxos, como se houvesse mais prazer nas opiniões incômodas que na companhia do rei, como se uma taça de vinho tivesse o mesmo gosto em New York e Goiás, como se não tivessem os lobos o pleno direito de estar ocultos nas virtudes das grandes utopias.

            Agora que preparo no silêncio uma nova idade para minha fala, terei finalmente aprendido algo com teu ruído, tua música urbana, teu grito? Quisera poder trabalhar todos os dias enquanto as paredes são demolidas ao meu redor. Quisera compreender teu hedonismo estóico ou, sei lá, teu estoicismo hedonista. Encontrar doçura no fel, confrontar os fantasmas familiares, amar sem medo (ou com medo, foda-se!), afogar as mágoas, fazer valer mais um gosto do que cem mil réis, recusar as certezas fáceis, rir tanto da culpa quanto da auto-indulgência, manter o senso de justiça e não importar-se de estar acima e abaixo dela. Agora sei o quanto custa conseguir. O que entregas de graça, teu amor e tua amizade, é fácil ganhar. Mas merecer... Merecerei, mereceremos nós, os teus fãs? Será preciso acordar e viver. Viveremos, eu e o rabo do tatu.

            Mas, por hoje, viva tu!



Escrito por Antonio Alves às 20h24
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Até logo

 

“Quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos
Quero ver brotar o perdão onde a gente plantou - juntos outra vez
Já sonhamos juntos semeando as canções no vento
Quero ver crescer nossa voz no que falta sonhar
Já choramos muito, muitos se perderam no caminho
Mesmo assim não custa inventar uma nova canção que venha nos trazer
Sol de primavera abre as janelas do meu peito
A lição sabemos de cor, só nos resta aprender”

                        (Sol de Primavera – Beto Guedes/Ronaldo Bastos)

 

            Com os versos desta antiga canção comunico aos leitores amigos que só voltarei a publicar neste blog em meados de setembro. E vocês também, porque até a caixa de comentários ficará desativada por cerca de três semanas.

            Quando for novamente ativado, o blog permanecerá neste mesmo endereço, com poucas mudanças em sua configuração. Mas estará abrigado também, em outra versão, num site chamado Sem Domínio, onde estarão na íntegra os textos mais longos.

            Vai ficar bom, vocês verão.

 



Escrito por Antonio Alves às 23h12
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